TROFÉU ALFERES TIRADENTES
BELO HORIZONTE, ABRIL DE 2009
Discurso de S. Excia. Revma. Dom João Bosco Óliver de Faria - Homenageado
Os romanos não tinham a facilidade das agendas para suas anotações. Assim, os dias nefastos eram recordados por uma pedrinha preta, onde se escrevia a data e o nome do evento ocorrido, morte de um ente querido, por exemplo. Os dias mais felizes eram gravados em uma pedrinha branca. Quando lhes acontecia algo muito bom, diziam: para ser gravado em uma pedrinha branca: “Albo signanda lapillo”.
Esta noite, na história de minha vida, será gravada em uma pedrinha branca!
À surpresa da indicação de meu nome para receber esta comenda, sobrepôs-se a de ser chamado para falar em nome dos agraciados. Gastarei, prazerosamente, duas pedrinhas brancas! Os senhores tornam esta noite mais significativa para mim, por ver meu nome alinhado com os seus nomes, que tanto significam para Minas Gerais e para a Polícia Militar. Deus me surpreende, sempre, com os mimos de Sua misericórdia.
A Polícia Militar é uma entidade como a pessoa de nossa própria mãe. Só se lhe dá o seu valor, só se percebe toda sua grandeza, só se avalia todo o significado de sua presença, quando se fica sem ela.
Quando era Reitor do Seminário Maior de Pouso Alegre, vinha, mensalmente, passar uns dois dias com meus pais, em Belo Horizonte. Deixava, então, um dos seminaristas mais velhos, como o responsável pela disciplina dos 120 seminaristas, jovens e adolescentes. Na volta ao Seminário em uma dessas visitas, disse-me aquele seminarista, hoje sacerdote: “ – Padre João Bosco, é só o senhor sair que acontece uma porção de problemas”. Respondi-lhe: “ – Paulo, não é assim. Esses problemas que você relata, acontecem todos os dias. Eu cuido deles e você não os percebe. Na minha ausência, você pode avaliar o volume e o significado do meu trabalho”.
Assim é a Polícia Militar. O bem estar de uma cidade, a paz e a qualidade de vida são conseqüências de uma presença silenciosa e atenta da Polícia Militar. Enquanto o povo descansa e faz festa, a Polícia Militar trabalha.
O bom ordenamento da sociedade pode ser conseguido por dois caminhos: pela consciência bem formada que guia o agir humano, ou pela coerção para aqueles cuja consciência moral não foi convenientemente lapidada. Na primeira situação, a pessoa age bem, por convicções pessoais. A motivação é de dentro do seu coração para o seu agir externo. Na segunda, torna-se necessário o uso da força disciplinar.
Meu santo padroeiro, São João Bosco, 1815-1888, criou uma entidade para cuidar dos meninos de rua (hoje os salesianos). Tinha em Turim, no norte da Itália, uma escola, em regime de internato, para 300 adolescentes e jovens desamparados. A alta qualidade de seu trabalho tornou-se ponto referencial, para quem visitasse Turim. O próprio rei Vitor Emanuel, tentou, uma vez, falar com São João Bosco. Houve uma ocasião que ele recebeu a visita de um Ministro da Inglaterra. Quando o Ministro chegou à porta do salão de estudos, viu, com grande surpresa, os 300 jovens, em perfeito silêncio, envolvidos no estudo. À frente deles, apenas um jovem seminarista na faixa de seu 20 anos de idade e mais ninguém a monitorar a disciplina. O Ministro ficou perplexo. Ao afastar-se da porta, perguntou a D. Bosco: “ – Como que o senhor consegue esta disciplina de tantos jovens?” E São João Bosco: “ – Com a prática da religião”! Perguntou-lhe o Ministro inglês: “ – Mas e se não se tem a prática da religião?” Disse-lhe D. Bosco: “Então usa-se o bastão. Ou religião ou bastão!” O Ministro caminhava repetindo sozinho: “O religione o bastone. O religione o bastone”!
Senhores Oficiais da Polícia Militar de Minas Gerais, Senhoras e Senhores, trabalhamos para um mesmo objetivo: a qualidade de vida na sociedade, a paz nas famílias, o respeito ao próximo e aos seus direitos e pertences. O que nós não conseguirmos com a religião, só poderá ser alcançado com a ajuda do bastão da Polícia Militar: “O religione o bastone”.
Fico a pensar: não somos nós que merecemos a honra dessa Medalha. É a Polícia Militar que merece, da nossa parte, o que não conseguimos concretizar: a expressão de nossa gratidão, respeito e reverência por tudo o que a Polícia Militar de Minas Gerais, - notoriamente, reconhecida como uma dasmelhores e a mais eficientes e competentes entre os Estados Brasileiros – significa para o bem estar do cidadão mineiro.
Em nome daqueles que os senhores, em sua magnanimidade, homenageiam com este precioso Troféu, e em meu nome pessoal, a nossa gratidão, enquanto esperamos a oportunidade providencial de um dia poder lhes retribuir a alegria que os senhores nos propiciam nesta noite, cuja data será gravada em uma pedrinha branca: “albo signanda lapillo”.